Rick Owens nunca tentou ser agradável. Sua moda não pede aprovação e não busca afeição. Ela se mantém firme. É pesada. Sabe o que é vergonha e não desvia o olhar. É exatamente por isso que ele se tornou quem é. Não um designer de tendências, mas um arquiteto da resistência interna.
Sua história não começa com brilho, mas com alienação. Califórnia, criação católica, culpa religiosa, o corpo como um lugar de controle. Owens entendeu desde cedo que a beleza não é decoração. É disciplina. Tensão. Uma decisão consciente de viver desconfortavelmente. Ele trabalhou nas sombras, criando jaquetas de couro para lojas underground, até que a Vogue Paris reconheceu algo inegável naquela escuridão. Ele foi elevado não por ser fácil de consumir, mas porque era inevitável.
A estética de Rick Owens não é gótica como estilo. É gótica como estado de existência. Silhuetas alongadas, ombros expostos, assimetria, tecidos que lembram cinzas, concreto, ossos. Suas roupas não embelezam o corpo. Elas o confrontam. Forçam quem as veste a reconhecer sua própria presença física. É aí que reside o poder. Moda deixa de ser ornamento e se torna ritual.
O trabalho dele está consistentemente enraizado na política do corpo. A masculinidade no universo de Owens não é agressiva. É vulnerável, exposta, muitas vezes distorcida. A feminilidade não é suave. É monumental. O gênero desmorona não por meio de slogans, mas através da forma. Suas silhuetas existem além dos binarismos, além das estações, além do tempo.
No cerne da sua mitologia estão três coleções que transformaram Rick Owens de designer em uma força cultural.
FW 2003 Trucker. Este foi o ponto sem volta. Com Trucker, Rick Owens deixou de ser um designer para um nicho e se tornou um designer para uma era. A jaqueta de couro parecia carregar um passado antes mesmo de ser usada. Proporções alongadas, textura crua, escuridão despida de romance. Era roupa para quem não buscava ser amado. Trucker introduziu brutalidade intelectual na moda e legitimou a cena underground. Deu corpo à vanguarda.
SS 2014 Vicious transformou a passarela em uma arena política. As modelos não apenas andavam. Elas pisavam forte, produzindo som, ritmo, confronto. Foi um repúdio à beleza passiva e às hierarquias tradicionais do corpo na moda. O desfile quebrou as expectativas sobre quem pode ser poderoso e visível. Aqui, Owens fala não só pelas roupas, mas pelo gesto. A moda se torna um ato de resistência e o corpo, uma declaração.
SS 2016 Cyclops marcou o ápice do seu pensamento sobre comunidade. Modelos carregavam outras modelos, presas umas às outras como estruturas arquitetônicas vivas. Foi uma meditação sobre a interdependência em um mundo obcecado pelo individualismo. A roupa recua e serve à arquitetura do corpo. Cyclops revela Owens não como provocador, mas como filósofo que usa a moda como forma de pensamento social.
Além da passarela, Rick Owens constrói um universo fechado. Sua parceria com Michèle Lamy não é movida por musas, mas por alquimia. Juntos, eles constroem um mundo regido por coerência radical. Móveis, arquitetura, livros, desfiles, até mesmo o silêncio entre as palavras seguem a mesma ética. Nada é acidental. Tudo é intencional.
Rick Owens nunca perseguiu a aprovação em massa, mas se tornou cult. Suas roupas são escolhidas por quem recusa a beleza convencional. Por quem entende a alteridade como poder. Ele se tornou o rei da moda avant-garde não por criar objetos estranhos, mas por dar forma àquilo que outros têm medo de nomear.
Em uma indústria viciada em velocidade e desejo, Rick Owens oferece algo diferente. Um confronto lento consigo mesmo. Suas roupas não tornam a vida mais fácil.
Elas a tornam mais honesta. E é aí que reside sua autoridade absoluta.